Falta de médicos, reclamação e prisão no CRS Aero Rancho

Falta de médicos, reclamação e prisão no CRS Aero Rancho

17/11/2018 0 Por Humberto Marques

Detenção de paciente por desacato é novo episódio em cenário de ausência de profissionais, que gera sobrecarga e demora na prestação de serviços à população.

O feriado da Proclamação da República foi de tensão para uma família do bairro Dom Antônio Barbosa –região do Anhanduizinho, em Campo Grande– que, na manhã de 15 de novembro, procurou o CRS (Centro Regional de Saúde) do Aero Rancho em busca de atendimento para o pai e, pelo menos, duas crianças. Segundo relato da mãe, enfrentaram o transporte coletivo para chegar ao local e, depois, ainda encararam a falta de profissionais de saúde para dar conta de toda a demanda. Ao mesmo tempo, o sistema de classificação de risco garantia que pessoas em situação mais grave tivessem prioridade. Indignada, reclamou com o médico e acabou o xingando. Foi presa por desacato.

Trata-se de mais um episódio envolvendo desrespeito a pacientes e trabalhadores do setor de saúde de Campo Grande. Mesmo anunciando chances de ganhos de até R$ 34 mil, a prefeitura não tem conseguido atrair profissionais em quantidade suficiente para fechar escalas nas unidades de saúde.

No dia da prisão, a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde) anunciava três médicos para atendimento geral no CRS Aero Rancho, unidade de urgência e emergência equivalente às UPAs (Unidades de Pronto Atendimento). No entanto, dois se apresentaram ao serviço, entre eles o que se envolveu na discussão com a mulher –que na verdade disse pertencer à equipe móvel, acionada em situações de falta de profissionais. Ele ainda admitiu não ser a primeira vez que dava voz de prisão em caso de ofensas. E que não seria a última, também, se o problema se repetisse.

A Sesau informou que o pai e as crianças foram atendidas no CRS com sintomas de gripe –eles haviam recebido classificação verde. A mãe, por sua vez, relatara ter chegado de manhã e, ainda por volta das 15h, aguardavam atendimento, o que gerara a reação dela e revolta em outras pessoas que passaram pelo local. O profissional de saúde, por seu turno, não pode ser desacatado durante o serviço e, naquele momento, já vinha atuando em uma equipe desfalcada.

Caso de desacato aconteceu no CRS Aero Rancho, em Campo Grande. (Foto: Google Maps/Reprodução)

Caso de desacato aconteceu no CRS Aero Rancho, em Campo Grande. (Foto: Google Maps/Reprodução)


A ordem de prisão por desacato foi cumprida pela Polícia Municipal e o caso acabou na Depac (Delegacia de Pronto Atendimento Comunitário) Piratininga, onde um termo circunstanciado de ocorrência seria registrado sobre o desacato.

Ganhos na rede municipal de saúde podem variar de R$ 19 mil a R$ 34 mil, segundo prefeitura

Casos de desacato envolvendo pacientes e médicos ou outros envolvidos em atendimentos, infelizmente, têm sido comuns. O tema já chegou até a ser debatido em audiência pública na Câmara de Campo Grande, em busca de uma solução para atenuar a dor de quem precisa de atendimento e dar segurança aos profissionais de saúde para exercerem suas funções.

No sábado (17), o titular da Sesau, Marcelo Vilela, vistoriou a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) Universitário, no limite entre as regiões do Bandeira e Anhanduizinho, acompanhado de Yama Higa, coordenador de Urgência da secretaria. Lá, segundo a assessoria do Paço Municipal, falou com servidores e pacientes e verificou se os tempos de atendimento eram aceitáveis.

A UPA deveria ter recebido quatro médicos para atendimento. Um profissional apresentou atestado e foi substituído. Durante a visita, o fluxo de pacientes era baixo, algo considerado incomum nas unidades de saúde de Campo Grande.

Vilela admitiu haver dificuldade em preencher as escalas de plantão, uma vez que, diariamente, seriam necessários ao menos 100 médicos apenas para as 10 unidades de urgência e emergência da Capital e dar conta da média diária de 4 mil pacientes.

Hoje, são 1.021 médicos, sendo 511 concursados e 510 convocados –isto é, admitidos mediante seleção simplificada.

De janeiro a outubro, foram convocados 1.081 médicos inscritos nos processos de seleção simplificada, porém, apenas 324 foram efetivados (menos de 30%). No ano passado, foram 577 convocações e 202 efetivações (35%).

“Há inúmeros fatores que fazem com que a gente tenha um número muito baixo de adesão, mas estamos a melhorar principalmente as condições de trabalho deste profissional para que ele se sinta mais confortável e mais seguro em atuar no serviço público e este fator é tão preponderando quanto à remuneração”, disse o secretário.

A fim de atrair mais profissionais, a prefeitura baixou resolução que detalha a possibilidade de ganhos de profissionais de Saúde, com estimativa máxima de vencimentos variando de R$ 19 mil a R$ 25 mil –quem tiver dois vínculos de 12 horas na Clínica da Família chega a receber R$ 34 mil mensais. Na classe médica, porém, aponta-se também a necessidade de estruturação das unidades de saúde –algo que o município também afirma realizar.

Aproveitando a visita, Vilela determinou o recolhimento de cadeiras em desuso ou danificadas. Segundo ele, “a grande maioria de nossas unidades necessita de uma intervenção. Nós estamos tentando viabilizar financeiramente um projeto para poder fazer esses reparos e melhorar as estruturas para que o profissional possa ter um ambiente melhor para se trabalhar e onde o paciente se sinta melhor acolhido”.

(Com assessoria)