Lula, Bolsonaro, Marina, Aécio, o discurso do “novo” e a alta rejeição estão na agenda de 2018

Lula, Bolsonaro, Marina, Aécio, o discurso do “novo” e a alta rejeição estão na agenda de 2018

20/09/2017 0 Por Humberto Marques

Pesquisa CNT/MDA retrata momento da corrida pela Presidência; Lula lidera mesmo condenado por Moro. Nomes mais citados têm rejeição acima dos 40%.

CNT/MDA: Lula (PT) dispara em primeiro, com Bolsonaro (PSC) em segundo para as  Eleições-2018. De um lado o condenado. De outro, um “condenável”. A pesquisa encomendada pela Confederação Nacional dos Transportes foi divulgada nesta terça-feira (19 de setembro).

De pronto, já rebato o tribunal virtual: o “condenável” se deve ao fato de o deputado Jair Bolsonaro ser dono de posturas políticas no mínimo radicais e mais alinhadas à direita, para desagrado de seus opositores. Até aqui não se divulgou nenhuma condenação contra o parlamentar do Rio de Janeiro.

Lula, por sua vez, tem nos calcanhares o juiz Sérgio Moro, que já lhe condenou à prisão por conta das suspeitas de ter se beneficiado em recursos de empresas e empreiteiras na compra e reforma do triplex do Guarujá –ele recorre em liberdade.

Marina Silva (Rede), o senador Aécio Neves (PSDB-MG), o governador paulista Geraldo Alckmin (PSDB), o prefeito paulistano João Doria (PSDB) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) estão entre os outros citados na CNT, inclusive em pesquisas diferentes. Ou seja, nada de (tão) novo no nosso front político.

A exceção é João Doria, mas com um dado que mancha sua inserção na política até aqui, e que citaremos a seguir.


Um detalhe interessante da pesquisa CNT/MDA é que todos os potenciais presidenciáveis, neste momento, têm rejeição superior à casa dos 40%.

A rejeição indica aquele candidato que, em hipótese alguma, terá o voto de determinado eleitor. Lula supera os 50%, e Bolsonaro está pouco acima dos 45%.

No folclore dos comitês eleitorais, uma rejeição acima dos 30% já tida como argumento para que se jogue a toalha.

Doria aparece com 42,5%. Egresso do empresariado, navegou até aqui sob a imagem de alguém que não é político. Conforme frisou reportagem da Veja, a percepção sobre ele pode estar começando a mudar.

Lula

Sem defender este ou aquele político, sempre argumentei que, dados os peões do atual cenário, as acusações que recaem sobre cada um e o seu poderio perante o eleitorado, há apenas duas candidaturas consolidadas: a do ex-presidente Lula e a de quem Lula indicar para o representar na corrida eleitoral.

Isso porque, já durante o processo de impeachment de sua sucessora, Dilma Rousseff, ele dava pinta de que poderia encarar a briga por um terceiro mandato. Insinuações que surgiam em meio àquilo que denunciou como “injustiça”. Mas, considerando que o petista segue em turnê pelo país –a começar pelo Nordeste, onde sempre teve maioria– em defesa do seu nome e do partido que ajudou a fundar, ele mostra que gostou da nova chance colocada à sua frente.

Lula só deve ficar fora da disputa eleitoral caso a Justiça lhe impeça. Não que já tenha a vitória garantida, ao contrário: o ex-presidente e o PT estão até o pescoço de denúncias, encaram um Antônio Palocci disposto a falar muito sobre seus tempos de governo ao Judiciário e viram parte do eleitorado descolar após os mandatos de Dilma. Há dúvidas se a popularidade do petista sozinha seria capaz de desmontar essa bomba-relógio e garantir maioria nas urnas.

Fatos como o séquito de apoiadores, incluindo legendas como o PMDB de políticos associados, não devem ser considerados. O cenário político é dinâmico, e o aliado de ontem e adversário de hoje pode lhe dar as mãos novamente amanhã.

Bolsonaro

Jair Bolsonaro, por sua vez, pode ser qualificado como um dos “novos da vez”. Embora seja político experimentado, fala grosso para ser candidato a presidente pela primeira vez, inclusive traçando rotas fora do partido para ter o projeto garantido.

Tem hoje, como Lula, um suporte eleitoral quase fanático, arraigado em conceitos conservadores e que colidem em cheio com a agenda de direitos humanos levantada pela esquerda –um dos principais alvos dos fãs do “Bolsomito”, o que promete uma agenda interessante para 2018, menos pelo debates e mais pelo nível da campanha (dos dois lados).

Curiosamente, o ponto mais forte de Bolsonaro é o seu Calcanhar de Aquiles. As posições polêmicas agradam fatia do eleitorado indignada com o aumento da criminalidade e do avanço de agendas sociais relacionadas aos direitos das ainda chamadas minorias.

Mas assustam quando se observa que o discurso hoje colado aos defensores de Bolsonaro é o da truculência, com a devolução de injúrias com a mesma velocidade e intensidade –algo a ser trabalhado de forma a cativar o cidadão mais ao centro, insatisfeito com o cenário atual mas que não aposta no “olho por olho” para consertar o país. Anote-se: não há manifestação oficial de Bolsonaro de que esta é sua resposta aos problemas do país.

Marina e Aécio

Entre os pré-candidatos que aparecem na CNT, há expectativa quanto a postura de Marina. Nascida na esquerda, surpreendeu em 2014 ao preferir Aécio Neves a Dilma no segundo turno, ao qual não chegou por pouco. Acabou manchada pela derrota do tucano, e se espera agora ver como vai se reapresentar ao eleitor depois de anos orbitando o cenário político.

Quanto a Aécio, os 69,5% de rejeição apontados pela pesquisa resumem o que se esperar o senador tucano, implicadíssimo no escândalo da JBS –de certa forma, foi mais prejudicado do que nomes do próprio PT, graças às gravações e comentários dos irmãos Batista e seus funcionários sobre como o senador mineiro se manifestava para obter ajuda às campanhas.

Até então, a cena do segundo turno de 2014, onde a comemoração da vitória ao lado de globais acabou engolida pelos poucos votos que Dilma conseguiu a mais, trabalhava contra Aécio. Não será nada estranho se o PSDB escolher Alckmin ou Doria em seu lugar –no caso deste último, há quem avalie que o batismo definitivo como “político profissional” com a renúncia à Prefeitura de São Paulo para concorrer ao Palácio do Planalto.

Alckmin, Doria e Ciro

Alckmin sonha com o Planalto, tem elevado discursos contra o “novo” na política e até mesmo ensaia falas em oposição a Michel Temer, mas tem de resolver a disputa interna do PSDB antes de colocar os dois pés no palanque. E tudo isso tendo como pedra e vidraça suas gestões em São Paulo. E com Doria, que já foi tratado como “criação” sua, como adversário nas prévias tucanas.

Doria tem pela frente um mínimo de dois anos de mandato na gestão paulistana. Como lembrado há pouco, desistir agora para encarar uma candidatura presidencial é nebuloso, até porque não há retratos fiéis sobre como a gestão do prefeito é analisada nacionalmente. Além disso, a renúncia para disputar o Planalto depõe contra a imagem que ele tanto combateu de ser um político.

Apresentou-se até hoje como um gestor, que segue cartilha de marketing interessante. Figurou em diversas ações da administração paulistana à caráter, colecionou decisões polêmicas também na contramão de conquistas históricas da esquerda (vide o tratamento questionável na Cracolândia), mas administra sem sobressaltos até aqui a maior cidade do país.

Ciro Gomes, por fim, é a alternativa da esquerda. O ex-governador cearense, como os demais, participa de seminários e debates onde deixa suas impressões sobre o cenário político brasileiro, em especial a revolta com a desconstrução da esquerda. Sua trajetória e a do irmão, Cid, no Ceará e nos governos de Lula e Dilma –onde também acumularam admiradores e acusadores– serão os pontos a serem explorados.

Interessante é que Ciro já deu declarações considerando a candidatura de Lula um desserviço ao país. Sem o petista na disputa, sua aposta é a de contar com a esquerda ao seu redor -inclusive tendo o ex-prefeito paulistano e ex-ministro da Educação de Lula, Fernando Haddad, como parceiro de chapa. E, mesmo já tendo larga vivência na política, também puxa para si o discurso do “novo”.

Com todos os atores postos até aqui, há quem duvide de que há tempo hábil para mais algo “novo”, como a ventilada e até aqui inusitada (para dizer o mínimo) candidatura do apresentador Luciano Huck. Uma coisa é certa: o brasileiro está cansado. Já não é de hoje que faz escolhas emocionais, e não racionais, quanto aos representantes políticos.